AIEA defende cooperação com Irã e desafia Ocidente
Data: 16/09/2007
Natalie Nougayrède, do ‘Monde’
Diretor que negava haver armas atômicas no Iraque volta a contrariar os EUA
El Baradei propõe um cronograma para que Teerã esclareça dúvidas sobre programa nuclear; para críticos do acordo, Irã mente
O diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a organização encarregada de fiscalizar a aplicação do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), vem travando uma partida difícil.
O egípcio Mohammed el Baradei fez frente ao governo de George W. Bush em 2002 e 2003, argumentando, nos meses que precederam o início da guerra no Iraque, que era preciso dar mais uma chance aos inspetores de armas que trabalhavam no país de Saddam Hussein, e que não existiam quaisquer provas da presença de armas de destruição em massa no país.
Agora, ele está uma vez mais sofrendo fortes críticas dos americanos e de alguns países europeus, especialmente França e Reino Unido.
A causa da disputa é um acordo assinado em 21 de agosto entre a secretaria da AIEA -uma agência técnica da Organização das Nações Unidas- e o Irã, sobre um “plano de ação” que prevê que a República Islâmica revele progressivamente todas as informações sobre seu histórico de atividades nucleares conduzidas clandestinamente entre 1985 e 2002, quando um grupo de oposicionistas exilados nos EUA as expôs.
O diretor do AIEA considera o acordo como um avanço significativo por parte dos iranianos. Seus críticos, porém, argumentam que tudo não passa de uma tentativa de manipulação, por meio da qual os iranianos procurarão ganhar tempo e evitar novas sanções das ONU, sem interromper seu programa nuclear.
O cronograma do plano de ação se estende apenas até novembro deste ano, quando deve acontecer uma primeira avaliação da cooperação iraniana.
Mas, de acordo com os diplomatas, em função de um sistema de escalonamento possível das respostas que os iranianos deverão fornecer aos inspetores da agência, o processo poderia se estender até o começo de 2008.
A reunião, na semana passada em Viena, do conselho de 35 diretores da AIEA gerou novas tensões entre El Baradei e alguns dos representantes ocidentais.
Pouco antes da reunião, em uma iniciativa comum que não foi anunciada publicamente, Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha expressaram suas objeções ao plano proposto e instaram o diretor da AIEA a manter como foco a demanda central e incontornável que o Irã deve atender, segundo eles: a suspensão das atividades vinculadas ao enriquecimento de urânio, que Teerã já retomou por duas vezes, em agosto de 2005 e janeiro de 2006, desafiando as proibições da agência.
Críticas atenuadas
As críticas públicas bastante violentas que o governo Bush vinha fazendo a El Baradei foram atenuadas, nas últimas semanas, uma decisão tomada a pedido de três países europeus envolvidos na negociação da questão nuclear.
De fato, o objetivo deles era evitar que o diretor da AIEA, premiado com o Nobel da Paz de 2005, seja visto como vítima de hostilidade dos Estados Unidos, já que, aos olhos de diversos países, tais como a Rússia, a
China e as nações não-alinhadas, as ações de El Baradei são percebidas como elemento de moderação em uma crise diplomática que não parece passível de solução.
Pela mesma razão, a posição assumida pela União Européia e expressa em um pronunciamento do representante português no conselho da AIEA foi relativamente moderada, evitando críticas, mas sem, ao mesmo tempo, expressar apoio explícito ao “plano de ação”. De acordo com declarações de diplomatas presentes em Viena à agência de notícias France Presse, El Baradei mesmo assim deixou a sala em sinal de protesto, porque contava com declaração de apoio mais firme da União Européia.
Os defensores de El Baradei sublinham que a decisão de transferir o caso do Irã da AIEA ao Conselho de Segurança da ONU, em fevereiro de 2006, havia sido tomada, acima de tudo, porque a República Islâmica não cooperava o bastante com os inspetores da agência.
O plano de ação introduziria, de acordo com essa interpretação, um fator novo que seria preciso levar em conta ao avaliar a decisão, já que o que está em jogo é potencialmente uma questão de guerra ou paz no Oriente Médio.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Setembro 16, 2007 às 11:44 am |
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