Bélgica: Impasse pode criar dois países
Samy Adghirni
Rivalidade histórica entre maioria de língua holandesa e minoria francófona se reflete nas urnas e impede formação de novo governo. Partido mais votado quer ampliar os poderes da próspera Flandres
Os belgas não estão honrando o lema oficial de seu pacato e próspero país — “a união faz a força”. Após décadas de tolerância mútua, as duas principais comunidades do pequeno reino, os flamengos e os valões, estão em pé de guerra. O racha ressurgiu nas eleições gerais de junho passado, com tal força que os grandes partidos não conseguiram até hoje formar um governo. Desorientado, o centro de comando da União Européia afunda numa crise sem precedente. Pesquisas de opinião alarmantes revelam que metade da população acredita que o país está perto de acabar. Os belgas terão de decidir em breve se continuam unidos ou seguem o caminho da Tchecoslováquia, que se separou pacificamente em 1993.
Há mais de três meses os belgas esperam para saber quem vai governá-los. O Partido Democrata-Cristão Flamengo (CDV), liderado por Yves Leterme, chegou em primeiro lugar. Mas Leterme, embalado pelos clamores nacionalistas de Flandres, adotou um discurso que vem atiçando as divergências. Essa posição tornou inviável a formação de um gabinete com os liberais, vencedores na região rival de Flandres. Enquanto o impasse não se resolve, a equipe do liberal flamengo Guy Verhofstadt (VLD) continua administrando o país, “onde o rei reina, mas não governa”.
Apesar de ser um pouco maior que o estado de Alagoas, a Bélgica é dividida por linhas territoriais étnico-linguísticas (veja mapa). A maioria flamenga, que fala holandês, e a minoria francófona sempre reclamaram mutuamente de discriminação. Há relatos de médicos valões que se recusam a tratar pacientes flamengos e vice-versa. Casamentos interlingüísticos são raros. Os flamengos, que falam bem o francês, se queixam dos valões por não aprenderem o holandês. “Não há uma língua belga, não há nada belga”, exagera Filip Dewinter, líder do partido nacionalista flamengo Vlaams Belang.
Separatismo
O nacionalismo flamengo originou-se nos anos 60. À época, a Valônia, rica em minas de carvão e repleta de siderúrgicas, mergulhou numa recessão profunda e empobreceu. Flandres, enquanto isso, faturava alto com investimentos na área de comércio e serviços. Os clamores separatistas sempre foram mais intensos no próspero norte, cada vez mais irritado com os subsídios que fornece ao sul, mais assistencialista. O vereador valão Jacques Gobert rebate: “Partir a Bélgica seria uma catástrofe. Aos flamengos que dizem que custamos caro, respondo que Flandres era dependente da Valônia até pouco tempo atrás”.
O analista Alain de Neve não vê razão para alarde. “A situação atual não tem nada de extraordinário. Crises maiores ocorreram nos anos 1970 e 1980”, disse De Neve ao Correio. O especialista aposta que, cedo ou tarde, Yves Leterme será obrigado a adotar uma posição pragmática. “Queira ou não, o único caminho para o CDV é uma Bélgica federal, e não uma Flandres independente”, insiste.
“O sectarismo belga me entristece profundamente. Os políticos se focam demais no problema da língua e acabam esquecendo as outras questões, como a economia e o desemprego”, desabafa Gaston Van San, um alto empresário flamengo. Herman de Croo, ex-presidente do Parlamento, está preocupado com a repercussão da crise. “Costumo lembrar aos embaixadores estrangeiros em Bruxelas que, durante as crises na Bélgica, falamos muito e derramamos muita tinta (de jornal), mas nenhuma gota de sangue.”
Fonte: O Correio Braziliense

Setembro 25, 2007 às 11:02 am |
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