Espanha em uma relação ambígüa com a imigração
Uma das maiores economias do mundo vive uma contradição: com sua população envelhecendo e uma taxa de natalidade decrescente, a Espanha precisa atrair imigrantes para manter a economia em funcionamento. Mas as políticas de Estado nesse sentido têm enfrentado oposição.
A população espanhola já supera os 45 milhões de habitantes, segundo os cálculos do Instituto Nacional de Estatística (INE) do país, referentes a 2007. Desses, 4,48 milhões são estrangeiros –9,9% do total da população. A participação dos brasileiros nesse contingente é reduzida: apenas 2% dos estrangeiros legalizados, ou 89 mil pessoas.
O aumento do número de estrangeiros vivendo no país foi rápido. Desde 1998, o número de não-espanhóis regularizados aumentou sete vezes.
O “efeito chamada”
No início de 2005, o governo do presidente socialista José Zapatero promoveu um processo de regularização massiva de imigrantes ilegais vivendo na Espanha. Calcula-se que havia então, no país, cerca de 1,35 milhão de estrangeiros ilegais. Desses, 577 mil foram regularizados. A decisão foi duramente criticada pela oposição –para o Partido Popular da Espanha, a regularização em massa incentiva a imigração ilegal, promovendo o que alcunharam de “efeito chamada”.
De fato, estima-se que o número de imigrantes ilegais no país tenha voltado, já em 2006, aos mesmos níveis de 2004. Mas os estrangeiros legalizados já se tornaram parte importante da economia nacional. Segundo o Ministério do Trabalho e Seguro Social, 10% dos contribuintes do seguro social são imigrantes.
A entrada desses novos contribuintes no sistema é apontada pelo Partido Socialista (PSOE) como uma necessidade: segundo dados das Nações Unidas, a Espanha será o país mais velho do mundo em 2050, com uma média de idade de 55 anos e quatro sexagenários para cada criança. O país então se tornará a nação européia com a pior relação entre aposentados e população ativa. Os indicadores atuais de população já apontam sérios problemas estruturais: há 7,3 milhões de pessoas idosas (mais de 65 anos) na Espanha, enquanto os menores de 14 são 6,2 milhões.
“Não existe um ‘efeito chamada’. Existe um ‘efeito fuga’”, justificou o ministro do Trabalho, Jesús Caldera, quando chamado a dar explicações no Congresso sobre o aumento da entrada de ilegais no país. O PSOE argumenta que a ‘avalanche’ de imigrantes que chegam à Espanha está relacionada à falta de opções em seus países de origem e não na política espanhola.
Balsas e aeroporto
A face mais conhecida da imigração ilegal à Espanha são as balsas que chegam quase diariamente às costas do país, trazendo imigrantes da África subsaariana e do Magreb. Com as dificuldades da travessia, muitos morrem ou chegam debilitados, gerando imagens chocantes que a imprensa espanhola divulga sem receios.
O maior problema imigratório do país, no entanto, é o aeroporto de Barajas. Nos primeiros sete meses deste ano, quase 9 mil africanos chegaram à região do estreito de Gibraltar e às Ilhas Canárias. Mas, segundo o Sindicato Unificado de Polícias (SUP), a média de entrada de imigrantes ilegais pelo principal aeroporto do país é de 1,5 mil a cada dia.
Europeus já são maioria
Entre os que conseguem pisar o solo espanhol depois de entrar como turistas, a imensa maioria é de bolivianos. Isso acontece porque os cidadãos desse país não precisam de visto de entrada, como acontece com os provenientes da República Dominicana, Equador e Colômbia – países que, em anos recentes, foram origem de grandes massas de imigrantes.
Com a entrada da Romênia e da Bulgária na União Européia, em 1º de janeiro deste ano, a situação dos imigrantes na Espanha mudou. A América do Sul deixou de ser a região de origem da maioria dos legalizados, dando lugar aos europeus: são 1,39 milhão de sul-americanos, ante 1,7 milhão de europeus. Romênia e Bulgária são o maior contingente: 646 mil.
Fonte: G1

Dezembro 4, 2007 às 5:46 pm |
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