Putin dá lance arriscado para se manter no poder
Presidente russo avisou que vai tentar virar premiê após fim do mandato.
O jornal ‘New York Times’ usou a expressão ‘jogo cínico’ de Putin.
Vladimir Putin parece ter encontrado uma maneira de continuar sendo o homem mais poderoso da Rússia mesmo depois que deixar o cargo de presidente, sem precisar mexer na constituição. No entanto, seu estratagema é arriscado e pode acirrar tensões no âmago do Kremlin. A convenção do Partido Rússia Unida pró-Kremlin mal havia acabado e o palco na Gostiny Dvor, com 500 anos de existência, na Praça Vermelha em Moscou, ainda nem havia sido desmontado, mas já surgiam sinais de indignação na imprensa americana e nos círculos políticos de Washington.
O jornal “New York Times” usou as expressões “jogo cínico” de Putin e “manipulação política grosseira”, que acabaria provocando o efeito contrário ao pretendido e chegaria para assombrar a Rússia. Até a secretária de estado Condoleezza Rice, normalmente reservada, foi citada tendo afirmado que a concentração de poder em Moscou é “preocupante”. Seu assessor interino, Tom Casey, acrescentou, em tom de alerta, que os EUA agora ficariam de olho no modo “como o processo político se desenrola e no andamento das eleições no país”.
Casey referia-se às eleições parlamentares de 2 de dezembro na Rússia, em que cerca de 105 milhões de russos poderão votar. Trata-se da eleição que provavelmente definirá o futuro da carreira política de Vladimir Vladimirivich Putin.
O astuto presidente russo acionou seu mais recente golpe tático na segunda-feira (1º) da semana passada quando, na convenção do partido Rússia Unida, mostrou-se inclinado a se candidatar ao cargo de primeiro-ministro. Ele disse aos deputados presentes que era “grato” pela proposta de encabeçar a lista eleitoral do Rússia Unida. Os comentários de Putin foram recebidos com sete minutos de aplausos.
O aspecto mais paradoxal dessa eleição é que, faltando oito semanas para os russos irem às urnas, já é possível prever o resultado. Analistas concordam que após o discurso de Putin na última segunda-feira (8), seu partido de fachada obterá pelo menos dois terços dos lugares da Duma, a câmara dos deputados do parlamento russo. O presidente receberá o mandato principal e, em seguida, possivelmente o cargo de primeiro-ministro. Essa, como disse Putin à platéia com um positivo aceno de cabeça, é “sem dúvida uma proposta realista”.
Seria essa uma maneira de o homem mais poderoso da Rússia se tornar seu próprio sucessor depois de deixar o cargo ao fim de seu mandato presidencial daqui a alguns meses? Conseguirá ele se manter no poder, sem alterar sequer uma vírgula da constituição, transformando, de uma hora para a outra, o posto de premiê, praticamente insignificante na gestão Putin, no cargo político mais poderoso do país?
Embora o momento e o formato da proposta de Putin terem surpreendido, a “idéia de primeiro-ministro” em si não foi novidade. Durante meses, a proposta foi considerada como uma maneira possível de garantir que o sistema de Putin continue em vigor após maio de 2008.
Os norte-americanos estavam totalmente cientes disso. Sua ameaça discretamente velada de enquadrar as eleições russas como fraudulentas é tão ineficaz quanto o surto de indignação momentâneo de Washington.
Em um país onde 66% dos cidadãos e uma porcentagem ainda maior de mulheres e habitantes das zonas rurais de fato querem que Putin continue exercendo um “papel político ativo”, não há nenhuma necessidade de fraudar eleições. “As pessoas gostam das idéias dele”, diz Vladimir Yakunin, como explicação para a contínua popularidade do presidente.
Preocupação americana
O apelo da deputada Yelena Lapshina, trabalhadora da indústria têxtil da região central russa de Ivanovo, aos “diversos patrões” presentes no centro de convenções a “pensarem em alguma coisa” que possibilitasse que Putin permaneça no poder obviamente foi um espetáculo armado. No entanto, em comparação com as convenções do partido da era Brezhnev, o acesso de Lapshina não parecia ser algum tipo de número tolo da linha do partido. Aquilo, presume-se, foi sincero. E real.
O que enfurece os EUA é a maneira pela qual Putin consegue consumar sua forma artificial de democracia sem se tornar vulnerável a ataques. Outra coisa que também provoca inquietação em Washington é o fato de a Rússia que hoje ressurge no cenário internacional ser o país que até pouco tempo parecia incapaz de se curvar, mas que agora quase não precisa da aliança americana e está, na verdade, constantemente tentando contrariar a administração Bush na política mundial, seja em Kosovo, no Irã, no Oriente Médio ou na defesa anti-míssil.
Em frente a um cenário enorme de banners exaltando as palavras “Plano de Putin, Vitória da Rússia”, o presidente alimentou as esperanças dos deputados do partido na Gostiny Dvor Arcade de que o país continuaria a melhorar sua posição no mundo, incluindo seu poderio militar. A modernização pela qual o exército russo passou até agora, como discursou Putin, é “apenas a primeira etapa do renascimento de nossas forças armadas”.
Fica cada vez mais evidente, até para os americanos, que com Putin mantido como representante principal, a Rússia continuará sendo um oponente capcioso nos próximos anos, um país que tentará moldar as questões de política externa em prol de interesses próprios. Corroborando esse padrão, a gigante estatal de gás natural Gazprom ameaçou cortar o fornecimento de gás à Ucrânia mais uma vez, ressaltando a dívida de US$ 1,3 bilhão deste país, exatamente dois dias depois de a coalizão laranja pró-ocidental ter assegurado a maioria nas eleições parlamentares do país.
Moscou interpretou a inquietação de Washington como sinal de elogio e reconhecimento do novo poderio russo. É pouquíssimo provável de que os russos fiquem ofendidos com o fato de o assunto sucessão de Putin ter sido basicamente definido às portas fechadas do Kremlin.
Uma revista de Moscou chegou a apoiar a idéia de que o Kremlin deve permanecer “fechado e impenetrável” no futuro, porque essa seria a única maneira de “defender adeqüadamente os interesses russos contra o ocidente”.
A candidatura de Putin como candidato único do Rússia Unida (partido ao qual ele sequer se filiou) e seu possível cargo como primeiro-ministro fortalecerão o governo, os partidos políticos e o parlamento, é o que declararam associados a Putin em tom de triunfo, como por exemplo Valentina Matviyenko, governadora de São Petersburgo.
Entretanto, Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez e descrente candidato presidencial pela coalizão de oposição liberal de inclinação de esquerda, A Outra Rússia, enxerga que seu país ingressará em uma “ditadura de um só partido levemente desgastada”.
Não são exatamente necessárias habilidades paranormais para chegar a essa conclusão. O fato de as eleições parlamentares, segundo um dos líderes do partido governista, acabar de tornando um “referendo” de Putin, significa que o Kremlin obviamente planeja fazer tudo que estiver em seu poder para sobrepujar os resultados das eleições presidenciais de março de 2004, em que Putin abocanhou 71,3% dos votos.
O resultado seria que o partido de oposição pseudo-esquerdista, o Rússia Justa, outra invenção do Kremlin, passaria raspando pelos 7% necessários para ingressar na Duma, enquanto o restante dos votos poderia ir para os comunistas e simpatizantes do populista de ala direitista Vladimir Zhirinovsky.
Fonte: G1

Outubro 11, 2007 às 9:43 pm |
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