Structural Realism in a more complex world

Resenha feita por Rickson Rios

Review of International Studies (2003), 29, 403–414 British International Studies Association

Structural Realism in a more complex world

Charles Glaser

O artigo de Glaser é uma resposta aos editores da Review of International Studies em sua crítica ao realismo: a primeira é a de que o realismo perdeu sua relevância para a política internacional atual; a segunda é a de que o realismo não explica bem o comportamento das grandes potências do mundo.

Glaser entende que a relevância do realismo persiste, já que o mundo pós-guerra fria não se tornou um ambiente de absoluta cooperação e pacifismo. Para ele, os policymakers deveriam continuar preocupados nas relações entre as grandes potências, principalmente em face da escala de potenciais danos que seriam causados por uma relação conflituosa.

No mínimo há lugar para desacordos futuros entre as potências. Para o autor, há amplo, mas não completo acordo entre os países da Europa Ocidental e os EUA. As relações entre os países do ocidente e a Rússia estão ainda em transição. A ascensão da China representará uma competição tanto com países do nordeste da Ásia (Coréia do Sul e Japão), quanto com os EUA. Há grande probabilidade de uma corrida armamentista.

Glaser alerta, contudo, para o fato de que o leque de prescrições oferecidas pelo realismo é amplo. O realismo ofensivo tende a ter uma visão pessimista sobre a possibilidade de evitar o perigo e prescreve uma política competitiva em relação à China (Mearsheimer). Realistas defensivos têm uma visão mais otimista quanto à possibilidade de se evitar o conflito e preferem propor políticas de maior cooperação.

Glaser afirma que, embora avaliações iniciais baseadas no realismo pudessem propor que os Estados se engajariam em uma balança de poder em relação aos EUA, dois argumentos, fundamentados no próprio realismo, nos informam o contrário: o primeiro se refere à distribuição de poder entre os Estados; o segundo, às informações que os Estados têm sobre os motivos e intenções que os demais apresentam particularmente em suas políticas militares.

Segundo o primeiro argumento, os Estados não se engajam em uma balança de poder contra a hegemonia norte-americana em face de larga vantagem multidimensional que os EUA têm em relação aos demais: econômica, militar, tecnológica, em termos de recursos, posição geográfica etc.

O segundo argumento se baseia no fato de que os Estados entendem que uma balança de poder contra os EUA é desnecessária. Os Estados não vêem os EUA como uma ameaça, mas sim como um ator benigno, que busca a segurança. Isso fica claro principalmente para a Europa e o Japão. Talvez não tanto para a China, mas essa não teria parceiros, já que a Rússia não partilha da visão chinesa em relação aos EUA.

Glaser entende que essa componente, informação sobre os motivos dos Estados, não está fora das fronteiras teóricas do realismo, ao menos não de uma decorrência dedutiva do realismo estrutural. Para avaliar isso melhor, Glaser se utiliza de um argumento relacionado ao Dilema de Segurança. A informação acerca das intenções do outro é absolutamente relevante para a existência de um dilema de segurança. Será a partir desse tipo de informação que o Estado irá decidir se deve se engajar em uma política de competição ou cooperação com os demais.

Ameaças não-estatais

Na segunda parte do artigo, Glaser, assumindo as limitações do realismo no tratamento de atores não-estatais, e percebendo o incremento da ameaça causada por atores não-estatais, afirma que, apesar disso, o realismo não se tornou inútil como teoria aplicável, por alguns motivos:

1. Conflitos entre as grandes potências não estão descartados;

2. Estudiosos se utilizam de preceitos realistas para analisar situações que envolvem atores não-estatais;

3. Glaser critica a confusão que se faz entre o realismo e autores que são chamados realistas (e que não necessariamente o são);

4. E, principalmente, o que se refere às implicações de se combinar a teoria realista com outras de modo a estudar melhor o fenômeno. O Realismo estrutural assume que os estados são racionais e não se preocupa essencialmente com as motivações dos Estados, que seriam dadas. Para se compreender uma ação sub-ótima de um ator, seria preciso complementar a teoria realista com uma teoria de comportamento sub-ótimo. Se um Estado erra em sua percepção sobre o ambiente internacional, o realismo estrutural poderá explicar seu comportamento, se for combinado com uma teoria que explique os erros de percepção. Enquanto alguns entendem que isso seria uma falha da teoria realista, Glaser acredita que as teorias não são mais que complementares.

Realismo e Instituições

Na terceira parte do texto, Glaser trata das instituições internacionais. Para ele, os atores estatais racionais, segundo o realismo estrutural, consideram um leque de opções para alcançar segurança tais como constituir forças militares, engajar-se em corridas armamentistas, restringir o incremento de suas forças para evitar os perigos de um dilema de segurança e participar de instituições internacionais.

De acordo com os argumentos da teorias institucionalistas, as OIs podem disponibilizar informações com menores chances de trapaça, podem criar eficiências reduzindo os custos de transação e reunião de recursos, além de ser um veículo pelo qual os Estados podem assinalar seus motivos benignos.

Para os realistas, cada uma das funções acima apresentadas poderia ajudar um Estado a alcançar suas metas de segurança. Um Estado só faz uso de uma instituição internacional se essa for a melhor alternativa em relação a outras em que ele não se utilizaria de seus serviços.

Uma instituição pode ser útil também em situações em que a potência queira intervir em um determinado conflito que não faz parte de sua agenda estratégica, mas que apresenta questões humanitárias a serem tratadas (como o caso de um conflito étnico). Com isso haveria uma distribuição do custo entre os vários Estados. A intervenção unilateral, além disso, poderia levantar suspeitas quanto aos interesses do Estado na região. A OI evita que isso aconteça.

Em seguida, ainda nessa terceira parte, Glaser analisa a situação dos Estados Unidos. Trata-se de uma potência muito a frente das demais em termos militares, econômicos, tecnológicos etc.

Os EUA não necessitam se utilizar de OIs, embora o façam quando há uma relação custo X benefício em favor dessa opção. Mesmo assim, os Estados Unidos podem escolher o fórum adequado para levar adiante sua política (o que aconteceu na intervenção feita no Kosovo, feita pela OTAN e não pela ONU), ou ainda podem optar por não se utilizarem de tais fóruns (como no caso da guerra contra o Afeganistão e contra o Iraque.

Conclui afirmando que o realismo não necessariamente vai prescrever uma ação unilateral. Mas é o realismo a teoria que melhor vai explicar os motivos porque os EUA agem fora dos quadros de uma OI: é porque eles têm o poder para tal, em busca do atendimento de suas demandas de segurança.

A agenda ética e a ordem política

A quarta e última parte do artigo trata das preocupações humanitárias dos Estados e de como o realismo as poderia explicar. A argumentação seria a de que, segundo o realismo, os Estados não estariam preocupados com questões humanitárias. E no entanto, isso ocorre.

Segundo Glaser, o realismo estrutural assume que os Estados têm como prioridade máxima a segurança. Os Estados formulam políticas para maximizar sua segurança. O que não quer dizer que os Estados só tenham esse objetivo. Quando os Estados atingiram um alto nível de segurança passam a objetivos não relacionados ao tema.

Com o fim da Guerra Fria, e a conseqüente redução das ameaças, as potências puderam dedicar uma maior atenção e recursos para resolver conflitos étnicos ou de outra natureza humanitária.

Glazer afirma que o realismo, embora não recuse a busca pelos Estados de objetivos não relacionados à segurança, não indica qual deve ser a agenda política perseguida pelo Estado. Nem tampouco indica o ponto do trade-off entre políticas de segurança e não relacionadas à segurança.

Glaser encerra seu artigo respondendo aos editores da RIS sobre sua preferência pela Escola Inglesa com sua ênfase em uma sociedade internacional. Argumenta que a ordem proposta pela Escola Inglesa é essencialmente baseada em uma balança de poder, o que pode levar a guerras preventivas.

Em contraste, o Realismo estrutural identifica as condições em que a paz provavelmente prevalecerá, em que os Estados prefiram a cooperação à competição, e em que as relações políticas entre as potências sejam boas.

Uma resposta para “Structural Realism in a more complex world”

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